
Seul à mesa: das três estrelas à comida que alimenta a cidade
No segundo capítulo da série, a cozinha autoral do Mingles encontra o bindaetteok de Gwangjang, o kalguksu perto dos palácios, o carvão de Euljiro e o pescado de Noryangjin.
Seul se revela à mesa por contrastes. Há uma cozinha de precisão, capaz de transformar fermentação e memória em alta gastronomia, e há a cidade que come de pé, divide pratos, espera o caldo ferver e acompanha o fogo do carvão. Para entender a capital coreana, vale experimentar os dois extremos sem tratar nenhum deles como coadjuvante.
Neste segundo capítulo, a Diverso escolhe apenas uma experiência de luxo: o Mingles, de Kang Min-goo, que manteve três estrelas na edição 2026 do Guia Michelin. Depois, o roteiro desce à rua e procura sabores mais cotidianos — mercado, massa cortada à faca, churrasco e peixe fresco.
MINGLES, A COREIA CONTEMPORÂNEA EM TRÊS ESTRELAS
O nome Mingles já anuncia sua ideia central: misturar. O chef Kang Min-goo combina ingredientes, técnicas e referências coreanas com uma leitura contemporânea, sem apagar a identidade dos sabores. Jang — o universo dos fermentados como doenjang, ganjang e gochujang — não aparece como ornamento, mas como estrutura da cozinha.
Em 2026, o restaurante manteve as três estrelas Michelin pelo segundo ano consecutivo. É a única parada deliberadamente luxuosa deste capítulo, escolhida menos pelo espetáculo e mais pela maneira como traduz tempo, maturação e memória. Entre os pratos mais conhecidos está a sobremesa Jang Trio, construída a partir de três fermentados coreanos e transformada em assinatura da casa.

O Mingles funciona melhor quando pensado como introdução à Coreia de agora: rigorosa, inventiva e profundamente consciente de sua tradição. É uma experiência para reservar com antecedência e viver sem pressa.
GWANGJANG, ONDE A CIDADE COME JUNTA
No Gwangjang Market, o movimento faz parte do sabor. Bancadas se sucedem sob as luzes do mercado, panelas trabalham sem pausa e desconhecidos dividem o mesmo balcão. É um dos lugares mais diretos para entrar na comida popular de Seul.

O bindaetteok, panqueca crocante de feijão-mungo, chega dourado e ainda estalando. O mayak gimbap condensa arroz, legumes e gergelim em pequenos rolos; o yukhoe mostra a delicadeza da carne crua temperada. Mais importante do que tentar provar tudo é observar o ritmo: pedir, sentar, compartilhar e deixar o mercado escolher a ordem da refeição.
Aqui, a sofisticação está na repetição aperfeiçoada durante anos. Não há silêncio cerimonial nem louça calculada. Há técnica, velocidade, calor e uma mesa que parece pertencer à cidade inteira.

BIWON SON KALGUKSU, CALDO E CONFORTO PERTO DOS PALÁCIOS
Depois de uma manhã entre Gyeongbokgung, Changdeokgung e as ruas antigas de Jongno, uma tigela de kalguksu parece organizar o dia. No Biwon Son Kalguksu, endereço com mais de três décadas de história, a massa cortada à faca chega mergulhada em caldo de carne, com sabor profundo e aparência despretensiosa.

O restaurante também é conhecido pelo mandu jeongol, uma panela de dumplings preparada para compartilhar. É uma comida que aquece, desacelera e aproxima — exatamente o tipo de parada que faz sentido entre duas longas caminhadas pela parte histórica da capital.
EULJIRO, CARVÃO ACESO E MESAS NA CALÇADA
Quando anoitece, Euljiro muda de tom. O antigo bairro de oficinas gráficas e pequenas fábricas ganhou bares e restaurantes, mas ainda conserva vielas estreitas, fachadas discretas e uma energia pouco polida. No Dalmaji Gwangjang Barbecue, frango fresco vai ao carvão e as mesas se espalham pelo lado de fora.

É o oposto de uma sala gastronômica silenciosa: fumaça, conversa, chope gelado e pratos no centro da mesa. O endereço interessa justamente porque não tenta transformar a experiência popular em cenário cenográfico. Ele preserva o prazer simples de comer algo quente, direto da grelha, enquanto Seul segue acordada.

NORYANGJIN, DO MERCADO DIRETO PARA A MESA
O Noryangjin Fisheries Wholesale Market funciona como uma cidade dentro da cidade. Corredores inteiros são ocupados por peixes, crustáceos, moluscos e aquários iluminados. O visitante escolhe o pescado e pode levá-lo a um dos restaurantes do complexo para ser preparado na hora.

A experiência clássica é o hoe, peixe cru cortado em lâminas e servido com acompanhamentos. Mas o ritual vale tanto quanto o prato: percorrer as bancas, comparar, conversar, decidir e só então subir para comer. Do alto, o mercado revela sua escala; de perto, mostra a precisão de uma cadeia que começa antes do amanhecer.
UMA CIDADE, MUITAS FORMAS DE SENTAR À MESA
Mingles, Gwangjang, Biwon, Euljiro e Noryangjin não formam uma lista de melhores restaurantes. Formam uma leitura de Seul. A fermentação do menu autoral, a chapa do mercado, o caldo, o carvão e o pescado mostram uma cultura em que comer é também reconhecer tempo, trabalho e convivência.
No próximo capítulo, a Diverso troca a mesa pelo espaço urbano: parques, arquitetura, arte e o rio Han encerram esta primeira trilogia em Seul.
Série A Diverso em Seul — capítulo 2 de 3 Próximo capítulo: a Seul que respira — parques, arquitetura e arte junto ao rio.
Fotos: Mingles e Seoul Tourism Organization/Divulgação.
Perfis e endereços
Guia Michelin Seoul & Busan 2026
Gwangjang Market — Visit Seoul
Biwon Son Kalguksu — Visit Seoul
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