
Muito Além do Vinho
Orgânicos e sustentáveis, os vinhos biodinâmicos mostram como uma cultura pode resultar em uma bebida rica em sabor, respeitando a natureza e, principalmente, o solo onde suas
Orgânicos e sustentáveis, os vinhos biodinâmicos mostram como uma cultura pode resultar em uma bebida rica em sabor, respeitando a natureza e, principalmente, o solo onde suas
uvas são plantadas
vinho sempre esteve na história do Camargo, sócio da importadora de vinhos Nossa Garrahomem como uma das mais antigas feira. bebidas que conhecemos. O processo
Algumas dessas práticas são comprovadas
fermentativo das uvas existe há mais cientificamente como práticas orgânicas. Mas, apesar de 10.000 a.C, pois é um processo natudisso, outros manejos biodinâmicos são mais difíceis de ral. Natural é também nosso apreço por provar cientificamente. "Uma parte da comunidade cienessa bebida, seja para um brinde casual, tífica analisa o método [biodinâmico] com ceticismo e o para nos esquentarmos nos dias frios ou define como dogmático", escrevem os autores de um estudo de 2009 publicado no folhetim americano Journal of
mesmo para acompanhar as refeições. O novo nessa história é que, enquan- Renewable Agriculture and Food Systems.
O trabalho concluiu que mais estudos seriam
to a tecnologia avança e ajuda a melhorar diversas culturas, algumas vinícolas necessários, embora boa parte das pesquisas disponíveis miram-se no passado para criar vinhos demonstre que a agricultura biodinâmica teve um impacto
que resultal de ull Manejo suste vel, que respeita a terra e seu ecossistema e observa mesmo as fases da lua para garantir não só uvas livres agrotóxicos, mas uma respeitosa harmonia com o no: planeta. A esse manejo deu-se o nome de biodinâmico
MAS, AFINAL, O QUE SÃO OS VINHOS BIODINÂMICO

Vinho biodinâmico é feito a partir de um co junto de práticas agrícolas que vê a fazenda, ou vin como um organismo sólido. O ecossistema funcic como um todo, com cada porção do terreno contribu do para a próxima colheita. A ideia é criar um siste autossustentável - materiais naturais, solos e compos fabricados, muitas vezes, nas próprias fazendas são u dos para sustentar a vinha. Os fertilizantes químicos e os pesticidas: proibidos em prol da fertilidade do solo. Uma varieda de animais, de patos a cavalos e ovelhas, vive no s e cria um ambiente rico e fértil para o crescimento ‹ videiras. A agricultura biodinâmica também busca s tentabilidade. "Os produtores biodinâmicos tratam: terra como um ser de vida própria, um ecossistema co pleto e integrado nos ciclos cósmicos", destaca Gilbe
até l Também descobriu-se que as preparações biodinâmicas de expressam um "impacto ambiental positivo em termos de uso e eficiência de energia" SSO
S? QUANDO SURGIU?
O filósofo austríaco Rudolf Steiner iniciou onha, a ideia da agricultura biodinâmica no começo dos anos 1920, precedendo de longe o movimento orgânico. Esse na l filósofo e reformador social também promulgou o uso de inpráticas agrícolas baseadas no calendário lunar e nas inma fluências astrológicas, que hoje são aspectos mais controtos saversos da agricultura biodinâmica. Steiner acreditava em viver e cultivar junto são com a terra e seus movimentos, ao contrário de usar uma ide abordagem puramente científica, mas o filósofo tende a olo cair no lado de aspectos da agricultura biodinâmica que las são mais difíceis de provar cientificamente. Gilberto comenta que, enquanto a agricultura usbiodinâmica teve sua origem na Alemanha nos anos 20 do sua século passado, a aplicação de seus princípios à viticultumra deu-se mais tarde, tendo ganhado notoriedade na Franrto ça a partir dos anos 1980: "Hoje, a preocupação crescente
Detalhe de vinhedo da vinícola Santa Augusta, em Santa Catarina
na adoção de práticas que preservem o meio ambiente fez com que o uso da biodinâmica na viticultura ganhasse adeptos em todo o mundo, tendo a conversão de grandes viticultores, como Romanée Conti, contribuindo fundamentalmente para tal. Os maiores produtores mundiais de vinhos biodinâmicos, atualmente, são: Itália, Espanha e Chile, além de Geórgia e Eslovênia”.
COMO SÃO PRODUZIDOS?
O vinho biodinâmico é feito pelo cultivo dos componentes da vinha como uma entidade inteira, eliminando o uso de produtos químicos e usando materiais naturais e compostos. O calendário lunar, como dito antes, divide todas as tarefas associadas à agricultura em quatro tipos de dias: raiz; flor; frutos; e folhas. Cada um desses dias tem certas tarefas associadas que refletem os quatro elementos clássicos da Terra: os dias de frutos são destinados à colheita, os de folhas para a rega e os de raiz para a poda. Nos dias de flor, a vinha é deixada sozinha. Apesar das semelhanças nas culturas, os vinhos biodinâmicos não são iguais aos vinhos orgânicos. Para mantê-lo o mais simples possível, o orgânico é produzido com uvas orgânicas. A agricultura biodinâmica leva em conta outros fatores na agricultura, como a astrologia. Esse modelo considera mais toda a vida de um vinhedo – outras plantas, insetos, animais –, não apenas as uvas. Em todo o mundo, calcula-se que existam mais de 700 produtores de vinho biodinâmico. No Brasil, apesar de um mercado ainda pequeno, algumas vinícolas já passaram a aderir a esse manejo. A Vinícola Santa Augusta, de Santa Catarina, começou a conversão de seus vinhedos nas localidades de Videira e Água Doce em 2011. Em março de 2012, houve a primeira
colheita e, da fusão de parte dos nomes das sócias − Morgana e Taline De Nardi −, criou-se o nome do primeiro vinho biodinâmico brasileiro, o iMorTali, um equilibrado corte de Cabernet Sauvignon 76,5%, Cabernet Franc 18,5% e Merlot 5%. Outras vinícolas brasileiras também adotaram o manejo, como as gaúchas Don Giovanni e a vinícola cooperativa Garibaldi, que em janeiro deste ano lançou a linha Astral, primeira série de espumantes e sucos biodinâmicos do país reconhecidos pela empresa IBD Certificações e pela Associação de Agricultura Biodinâmica (ABD).
O QUE ESPERAR DO SABOR?
Para Gilberto, os assuntos sabor e qualidade são, sem dúvida, os mais polêmicos quando se fala em vinhos biodinâmicos. “Enquanto os benefícios ao meio ambiente são incontestáveis, a qualidade dos vinhos é objeto de discussões acaloradas. Há quem argumente que somente com o uso dessas práticas pode-se obter um vinho que expresse realmente seu terroir, o que faz sentido. Já a qualidade e o paladar são assuntos pessoais e controversos. Sabemos que as características dos vinhos são resultado de múltiplos fatores que vêm desde a vinha até a vinificação e o envelhecimento. Assim, a disponibilidade de nutrientes; a disponibilidade e a ocasião da ocorrência de luz, água e calor; o bom estado sanitário das uvas; os processos de vinificação e outros influem diretamente nas características da bebida, como sabor, aroma, corpo, textura e acidez. Os enólogos, com emprego das práticas convencionais, têm conseguido maior controle sobre o resultado final. Contudo, o bom mesmo é saber que, para podermos opinar sobre essas questões, teremos que provar mais e mais vinhos. Cada vinho é único e a cada prova nos surpreendemos”, finaliza o sócio da Nossa Garrafeira.


