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Café da Manhã à Noite

Segredo da magreza francesa, além de saber ajustar as porções, é abrir mão de algumas das três refeições diárias que meio mundo faz questão de manter, enquanto a outra metade paga um dobrado para evitar a tentação.

Segredo da magreza francesa, além de saber ajustar as porções, é abrir mão de algumas das três refeições diárias que meio mundo faz questão de manter, enquanto a outra metade paga um dobrado para evitar a tentação. Novidade que veio de Nova York e cruzou o Atlântico, primeiramente em Londres e agora em Paris, o brinner consiste no breakfast for dinner – segundo o Urban Dictionary, o Houaiss on-line dos neologismos, o “café da manhã tomado na hora do jantar”. Mas, ao contrário de ingleses e americanos, que foram com fome ao pote e fizeram do brinning um motivo a mais para repetir à noite o que comeram mais cedo, parisienses importaram os ingredientes matinais dos outros (afinal, nada mais minguado que um genuíno “petit-déj”) para renovar o seu velho conceito de “one day meal”, cujo princípio básico é comer apenas uma vez por dia seja lá o que for, na hora e o que quiser, numa defasagem horária gourmet cultural e histórica. No cardápio: pães; panquecas; waffles; ovos; cereais; abacate; salsichas; muffins; bolos; tortas; porridge; bacon; e, em casos mais hardcore, burritos e pizza. O brinning ganhou status de movimento, desbancando o slow food e o “cerealismo” (quando o mundo descobriu a quinoa e fez dela a cereja de todos os bolos); hoje, há centenas de páginas no Pinterest e no Instagram dedicadas a ele e, aos poucos, o brinning começa a tomar lugar do brunch no menu du jour da cidade-luz. Saudável não é, afinal, a única coisa leve sobre a mesa de um brinner é o guardanapo. Mas duas mil calorias extras depois de uma noitada regada a vinho e cigarro chegam a ser um santo remédio. Vale dizer que a capital inglesa é a meca do brinner, com o trio The Waffle House, The Breakfast Club e Cereal Killer Café servindo bombas matinais até altas horas da noite. Mas, aos poucos, Paris começa a ampliar seu repertório. Em Montmartre, perto da Rue des Martyrs, epicentro bobô-gourmet da cidade, tem o ótimo Koff servindo bagels e banoffee pie até as onze e meia da noite; colado à Sorbonne, está o Breakfast in America (B.I.A entre os clientes assíduos), um diner perdido entre brasseries e boulangeries e ponto de encontro de estudantes padrão Bernardo Bertolucci em “Os Sonhadores” – a fila que se forma na porta todos os fins de semana, das oito da manhã às onze da noite, é a prova de que franceses não são tão foodie-paternalistas assim. Da decoração ao cardápio, tudo leva a crer que estamos em Williamsburg ou em Dumbo, a não ser o tamanho dos pratos, naturalmente mais modestos aqui do que acolá. Para comer, pecan pie; salsichas com ovos mexidos; torradas; presunto de Connecticut; batatas estilo hash brown; e queijos que até dia desses constavam na lista de sobremesas da cidade. Na Place des Vosges, outra dica certeira para trocar o dia pela noite (ou vice-versa, dependendo da hora em que você acorda) sem enganar o estômago é o Les Bonnes Soeurs, famoso pelos eggs Benedict e, paciência que vale a pena, pela longa fila que dá a volta no quarteirão mais lindo da cidade todo santo domingo. Os pães são de capotar e os sucos de fruta, por incrível que pareça, são feitos na hora. A massa das panquecas é de trigo sarraceno e sobre elas xarope de maple canadense (ok, québécois). Para fechar com chave de ouro (e não comer mais nada pelo menos até a manhã seguinte, quando só um suco verde deve ser permitido em nome dos “velhos” tempos), o Chez Casimir com seu menu de clássicos da Bretanha servidos à moda brunch até as sete da noite: charcuterie; salmão defumado; omeletes; e manteiga, que, para alegria de muitos, acaba de sair da lista dos vilões da boa alimentação. Importante dizer que o brinner não oferece benefício adicional para a saúde, longe disso, pois comer antes de dormir o que seu corpo passaria um dia inteiro processando não ajuda a manter a insustentável leveza do ser. Mas, como em tudo na vida, a dose é a chave do sucesso. E da magreza. Passada mais uma tendência, voltemos ao imbatível “amanhã de manhã, vou servir um café para nós dois…”.

Koff: 15 Rue la Vieuville, 18e. (koff-paris.fr) Breakfast in America: 17 Rue des Ecoles, 5e. (breakfast-in-america.com) Les Bonnes Soeurs: 8 Rue du Pas de la Mule, 3e. (www.bonnessoeurs.com) Chez Casimir: 6 Rue de Belzunce, 10e.

Capa da edição 36 Publicada na edição 36Folheie a edição completa, do jeito que ela circula.
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