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Fachada iluminada da flagship global da Onitsuka Tiger em Shinjuku, Tóquio

Onitsuka Tiger: do Japão do pós-guerra ao tênis que conquistou o mundo

Criada em Kobe para devolver propósito aos jovens por meio do esporte, a marca atravessou as pistas, ajudou a escrever o primeiro capítulo da Nike e renasceu como símbolo da moda japonesa contemporânea.

Entrar em uma loja da Onitsuka Tiger no Japão ajuda a entender por que a marca deixou de ser apenas uma fabricante de tênis. Há algo de galeria, ateliê e teatro em seus espaços: luz precisa, materiais tratados como objetos de design, vendedores que conhecem a história de cada modelo e uma clientela em que turistas dividem o salão com japoneses de várias gerações. O calçado está no centro, mas o que se vende ali é uma ideia muito bem construída de Japão — técnica, memória, artesanato e desejo contemporâneo.

É uma transformação extraordinária para uma empresa que nasceu em 1949, numa Kobe ainda marcada pela Segunda Guerra Mundial. Com dois funcionários, capital de 300 mil ienes e nenhuma experiência na fabricação de calçados, Kihachiro Onitsuka fundou a Onitsuka Co. movido por uma questão social: acreditava que o esporte poderia oferecer direção, disciplina e confiança à juventude japonesa do pós-guerra.

Mais de sete décadas depois, a mesma empresa está por trás de um dos tênis mais reconhecíveis do planeta, o Mexico 66, tornou-se referência da onda de silhuetas baixas e retrô e transformou suas lojas japonesas em destinos de viagem. Em 2025, as vendas da Onitsuka Tiger cresceram 43%, para 136,5 bilhões de ienes. No primeiro trimestre de 2026, avançaram mais 33,8%. É o resultado de uma combinação rara: arquivo autêntico, cultura pop, moda, precisão industrial e a força renovada do Japão no imaginário global.

Kihachiro Onitsuka, fundador da Onitsuka Tiger, diante da empresa no Japão

UM TÊNIS PARA RECONSTRUIR CONFIANÇA

A história começou numa quadra de basquete. Onitsuka decidiu que seu primeiro produto seria um calçado para o esporte, então o mais popular entre os estudantes japoneses. O modelo lançado em 1950 parecia, segundo o próprio fundador, “uma sandália de palha com cara de basquete”. Não era uma estreia perfeita — e justamente aí está uma característica que acompanharia a marca: observar, testar e corrigir.

Em busca de mais aderência, Onitsuka encontrou a solução durante um jantar. As ventosas de um polvo sugeriram uma sola capaz de se prender melhor ao piso. O primeiro protótipo agarrava tanto que os atletas chegavam a cair; depois de novos testes, o equilíbrio foi alcançado. A história da sola inspirada no polvo tornou-se uma espécie de mito fundador da empresa, menos por acaso genial do que pela disposição de converter uma observação cotidiana em engenharia.

Primeiro tênis de basquete criado por Kihachiro Onitsuka em 1950
Sola de tênis da Onitsuka inspirada nas ventosas de um polvo

Vieram então modelos que respondiam a problemas específicos. Em 1953, o Marathon Tabi adaptou ao atletismo a forma bifurcada do tabi, calçado tradicional japonês. Em 1960, o Magic Runner usou um sistema de ventilação inspirado nos motores de motocicleta refrigerados a ar para reduzir bolhas nos pés dos corredores. Antes de se tornar moda, a Onitsuka Tiger foi um laboratório esportivo.

Marathon Tabi de 1953 inspirado no calçado tradicional japonês
Magic Runner de 1960, criado para reduzir bolhas nos pés dos corredores

AS LISTRAS QUE VIRARAM ASSINATURA

Em 1966, uma competição interna de design deu origem às listras cruzadas que hoje identificam a marca a distância. Elas apareceram num modelo criado no ciclo dos Jogos Olímpicos da Cidade do México, disputados em 1968, e se tornariam inseparáveis do Mexico 66.

O desenho continua atual porque reúne duas qualidades difíceis de conciliar: é gráfico o bastante para ser reconhecido e discreto o bastante para atravessar décadas. O perfil baixo, o couro macio, a biqueira estreita e as listras laterais funcionam tanto com jeans e camiseta quanto com alfaiataria. Muito antes de existir o termo “luxo silencioso”, o Mexico 66 já praticava sua própria versão da ideia.

Delegação japonesa usando calçados Onitsuka nos Jogos do México em 1968

A CONEXÃO COM A ORIGEM DA NIKE

A história da Onitsuka Tiger também passa por uma das maiores marcas esportivas do mundo. No início dos anos 1960, o americano Phil Knight conheceu os tênis japoneses e criou a Blue Ribbon Sports para distribuí-los nos Estados Unidos. Seu sócio, o treinador Bill Bowerman, colaborou no desenvolvimento de um calçado de corrida que a Onitsuka lançou como Tiger Cortez em 1969.

A parceria terminou no início da década de 1970. A Blue Ribbon Sports tornou-se Nike e lançou seu próprio Cortez, mantendo a silhueta que ajudara a desenvolver. Mais do que uma nota curiosa, o episódio mostra que a escola técnica da Onitsuka esteve presente no nascimento da cultura moderna dos sneakers nos Estados Unidos — ainda que as duas empresas tenham seguido caminhos completamente diferentes.

Tiger Cortez de 1969, modelo ligado à origem da Nike Cortez

QUANDO ONITSUKA VIROU ASICS

Em 1977, a Onitsuka Co. uniu-se às empresas GTO e Jelenk para formar a ASICS. O nome é um acrônimo da expressão latina Anima Sana In Corpore Sano — “mente sã em corpo são” — e preserva o princípio que havia guiado Kihachiro Onitsuka desde o início.

Nas décadas seguintes, ASICS cresceu como uma potência de performance, especialmente na corrida. A identidade Onitsuka Tiger, porém, ficou em segundo plano. O tigre só voltaria a ganhar vida própria em 2002, quando a empresa percebeu que a Europa estava redescobrindo tênis esportivos vintage como peças de moda. O Mexico 66 foi relançado e a marca deixou de olhar apenas para a quadra e a pista: agora conversava com ruas, música, cinema e passarelas.

Mexico 66 relançado em 2002 na retomada global da Onitsuka Tiger

KILL BILL E O SALTO PARA A CULTURA POP

O grande momento pop veio em 2003. Em Kill Bill: Volume 1, Uma Thurman atravessa a tela com um conjunto amarelo e preto que homenageava o figurino de Bruce Lee em Game of Death. Nos pés, ela usava um Onitsuka Tiger TAI-CHI amarelo com listras pretas.

O detalhe importa porque o modelo é frequentemente chamado de Mexico 66 — um erro repetido tantas vezes que quase virou verdade. Era o TAI-CHI. A aparição transformou o calçado em objeto de desejo internacional e apresentou a nova Onitsuka Tiger a uma geração que talvez nunca tivesse assistido a uma prova de atletismo.

No mesmo ano, a marca abriu em Tóquio sua primeira loja operada diretamente. O cinema oferecia alcance; o varejo passava a controlar a experiência. A partir dali, Onitsuka Tiger começou a construir não apenas produtos, mas um universo.

Onitsuka Tiger TAI-CHI amarelo e preto associado ao filme Kill Bill

DO RETRÔ À MODA JAPONESA

A reestreia poderia ter terminado como uma breve onda nostálgica. Em vez disso, a marca usou o próprio arquivo como ponto de partida. Em 2008, lançou a linha NIPPON MADE, produzida no Japão com processos artesanais, tingimentos, lavagens e acabamentos manuais que tornam cada par ligeiramente diferente.

Em 2012, uma flagship em Omotesando consolidou essa visão e a colaboração com o estilista italiano Andrea Pompilio aproximou a casa do calendário internacional. Vieram apresentações na Pitti Uomo, em Florença, e participações nas semanas de moda de Milão e Tóquio. O guarda-roupa se expandiu para roupas, bolsas e acessórios; o tênis esportivo passou a ocupar o território de uma marca de moda completa.

Essa é uma diferença central em relação a boa parte do mercado de sneakers. A Onitsuka Tiger não vive apenas de relançamentos idênticos aos originais. Ela trabalha simultaneamente com três tempos: o arquivo esportivo, a reinvenção contemporânea e o artesanato japonês. O passado dá credibilidade; o design atual evita que a marca pareça um museu.

Modelo da linha NIPPON MADE produzida no Japão com acabamento artesanal

POR QUE A ONITSUKA TIGER VIROU FENÔMENO AGORA

O retorno dos tênis de perfil baixo criou o cenário perfeito. Depois de anos dominados por solados volumosos, o gosto mudou em direção a modelos mais finos e leves. O Mexico 66 entrou nessa conversa com uma vantagem decisiva: não precisava parecer retrô, porque era retrô de verdade.

Mas a silhueta explica apenas parte do fenômeno. Celebridades, K-pop e redes sociais aceleraram a circulação da imagem; a cantora Momo, do grupo TWICE, tornou-se embaixadora da marca. Ao mesmo tempo, consumidores cansados da onipresença de Nike e Adidas passaram a procurar peças com identidade menos óbvia. A Onitsuka Tiger ofereceu reconhecimento sem saturação.

O turismo no Japão completou a equação. O iene favorável tornou as compras atraentes para estrangeiros, modelos e cores nem sempre disponíveis em outros países criaram sensação de descoberta e as lojas passaram a integrar roteiros de Tóquio. Dados da própria ASICS mostram a força desse movimento: no segundo trimestre de 2025, as vendas da Onitsuka Tiger no Japão cresceram 78,9%; dentro desse resultado, a receita ligada a visitantes estrangeiros mais que dobrou.

Há ainda uma estratégia cuidadosa de distribuição. A marca privilegia lojas próprias e ambientes em que controla apresentação, serviço e narrativa. Menos exposição indiscriminada significa mais desejo. É a lógica do luxo aplicada a um produto que nasceu para o esporte.

TÓQUIO COMO PALCO DA MARCA

Em Tóquio, cada loja apresenta uma camada diferente da Onitsuka Tiger. Omotesando traduz a aproximação com a moda e a arquitetura; Ginza coloca a marca no coração do varejo de luxo; a loja NIPPON MADE funciona como vitrine do trabalho artesanal japonês.

Desde julho de 2026, Shinjuku abriga a maior flagship global da marca. São quatro andares e 1.837 metros quadrados atrás de uma fachada iluminada no Tiger Yellow. O projeto combina artesanato japonês e design italiano e organiza as coleções em três universos — Heritage, Contemporary e Formality. Mais do que uma loja grande, é a manifestação física da ambição atual da empresa: vender uma cultura de marca completa.

Essa teatralidade ajuda a explicar o fenômeno japonês. Comprar um par em Tóquio não é percebido apenas como uma transação; para muitos visitantes, é uma lembrança do país, quase um souvenir de design. A experiência da loja adiciona valor emocional ao objeto.

O LADO SOCIAL: ORIGEM, TRABALHO E CULTURA

A dimensão social existe, mas precisa ser contada sem exagero. A Onitsuka Tiger não se apresenta como uma organização filantrópica. Seu compromisso aparece primeiro na origem: a empresa foi criada para usar o esporte como ferramenta de formação da juventude no Japão do pós-guerra.

Hoje, essa ideia ressurge em projetos específicos. Em 2021, a marca colaborou com o Doi Tung Development Project, da Fundação Mae Fah Luang, na Tailândia. A iniciativa, criada para oferecer alternativas econômicas sustentáveis a comunidades montanhosas antes ligadas ao cultivo de ópio, produziu peças com tecidos feitos à mão e materiais reciclados, gerando trabalho e renda local.

O Tiger Gallery, instalado em espaços de lojas da marca, oferece visibilidade a artistas contemporâneos de diferentes países e conecta exposições a projetos de comunidade e revitalização cultural. Já a Onitsuka Innovative Factory, inaugurada em 2026 na província japonesa de Tottori, foi planejada não só para produzir a linha NIPPON MADE, mas para formar artesãos, criar empregos, receber visitantes e movimentar a economia regional.

São ações coerentes com o discurso de origem, embora não autorizem transformar a marca em algo que ela não é. O mérito está justamente na conexão entre design, trabalho especializado e desenvolvimento local — um campo em que a indústria da moda pode ter impacto concreto.

Onitsuka Innovative Factory na província de Tottori, Japão

O PRÓXIMO CAPÍTULO DO TIGRE

A Onitsuka Tiger prepara uma nova etapa. A ASICS anunciou que, a partir de 1º de janeiro de 2027, o negócio será separado em uma nova empresa, a OT GROUP. A operação já alcança aproximadamente 160 países e regiões, reúne cerca de 190 lojas próprias e 2.800 funcionários.

A independência corporativa pretende acelerar decisões e reforçar a posição da marca no chamado mercado de luxo lifestyle. É uma mudança relevante: o nome que durante anos viveu à sombra da ASICS volta a ocupar o centro do próprio destino.

Talvez seja essa a chave para compreender a Onitsuka Tiger de hoje. Ela não abandonou o passado esportivo para virar moda; transformou esse passado em matéria-prima. A sola inspirada num polvo, o tabi dos maratonistas, as listras de 1966, o cinema de Quentin Tarantino, o artesanato da NIPPON MADE e as fachadas luminosas de Tóquio convivem na mesma narrativa.

No Japão, onde tradição e reinvenção raramente são opostos, o tigre encontrou seu habitat perfeito. E foi justamente ao parecer cada vez mais japonês que se tornou um fenômeno mundial.

Fotos: Onitsuka Tiger e ASICS Corporation. Imagens oficiais de história da marca e materiais de imprensa.

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