
Do Monte Fuji ao anime: 10 vezes em que o Japão reinventou o luxo
Enquanto a Diverso mergulha na cultura japonesa, revisitamos encontros em que maisons europeias e americanas transformaram sakuras, mangás, mestres da arquitetura e técnicas ancestrais em moda, joias e alta-relojoaria.
A ideia para esta matéria nasceu diante de uma vitrine da Lacoste em Tóquio. Ali, o crocodilo francês aparecia enquadrado pela imagem do Monte Fuji — um encontro simples e certeiro entre dois símbolos reconhecidos em qualquer lugar do mundo. Em uma cidade onde tradição e futuro convivem sem pedir licença, a cena parecia resumir uma relação antiga: o luxo global olha para o Japão não apenas em busca de ornamentos, mas de linguagem.
Às vezes, essa inspiração chega pela arte de Yayoi Kusama ou pela arquitetura silenciosa de Tadao Ando. Em outros momentos, passa por Hokusai, pelo anime, pelo mangá, pelas flores de cerejeira, pela disciplina dos samurais ou por técnicas artesanais que exigem anos de aprendizado. O resultado pode ser uma bolsa coberta de pontos, um relógio com mostrador de laca, um tênis com Doraemon ou uma coleção apresentada sob as sakuras de Kyoto.
Esta não é uma lista de “estampas japonesas”. É uma seleção de dez encontros em que referências do país mudaram efetivamente a aparência, a narrativa ou o modo de fazer de algumas das maiores casas do mundo.
1. Lacoste Harajuku: o crocodilo aprende a falar Tóquio
A Lacoste assumiu oficialmente que o Japão é uma fonte permanente de inspiração ao abrir, em dezembro de 2023, sua concept store de Harajuku. Com 665 metros quadrados, a loja foi pensada como uma ponte entre o artesanato francês, a moda de rua japonesa e a cultura dos sneakerheads de Ura-Harajuku.
A coleção exclusiva do endereço transformou o crocodilo: ele apareceu entre flores de cerejeira, ao lado de mapas do bairro e em bordados criados especialmente para Tóquio. O projeto ainda deu espaço ao artista local MHAK, nome de Masahiro Akutagawa, e inaugurou o primeiro Café Lacoste. A vitrine com o Monte Fuji vista pela Diverso amplia essa lógica: em Tóquio, até um logotipo histórico pode ganhar sotaque local sem perder a identidade.


2. Louis Vuitton x Yayoi Kusama: pontos que viraram universo
A relação entre Louis Vuitton e Yayoi Kusama começou em 2012 e ganhou uma segunda escala monumental em 2023. Os pontos obsessivos da artista japonesa atravessaram bolsas, baús, sapatos, roupas, perfumes e até mostradores digitais do Tambour Horizon Light Up. A técnica de impressão procurou reproduzir o volume irregular de uma pintura feita à mão.
Na Boîte Chapeau 30, a tela Monogram recebe pontos multicoloridos que parecem pousados sobre a superfície. Não se trata apenas de aplicar a assinatura de uma artista a um produto conhecido. O objeto entra no universo de Kusama — repetitivo, alegre, vertiginoso — e passa a funcionar como peça de viagem e obra colecionável ao mesmo tempo.

3. Dior em Kyoto: alta-costura sob as cerejeiras
Em abril de 2025, a Dior apresentou sua coleção de outono nos jardins do templo Tō-ji, em Kyoto, sob cerejeiras iluminadas e diante do pagode de madeira mais alto do Japão. A escolha do cenário tinha história. Christian Dior era fascinado por gravuras e tecidos japoneses; em 1953, a maison já havia colaborado com artesãos de Kyoto, e em 1957 criou casacos pensados para serem usados sobre quimonos.
Maria Grazia Chiuri retomou esse diálogo por meio da construção bidimensional do quimono, de volumes envolventes e de tecidos trabalhados com casas locais como a Tatsumura Textile. O resultado evitou o exotismo fácil: França e Japão apareceram unidos pelo corte, pela matéria e pelo respeito ao tempo do artesanato.

4. Loewe x Studio Ghibli: fantasia feita à mão
Poucas colaborações traduziram tão bem a afinidade entre animação e artesanato quanto a série da Loewe com o Studio Ghibli. Depois de Meu Amigo Totoro, a maison dedicou uma coleção de 2022 a A Viagem de Chihiro. Chihiro, Sem-Rosto, Haku e os pequenos susuwatari ocuparam bolsas, tricôs, camisetas e acessórios.
O ponto alto estava no modo de execução. Marchetaria de couro, intársia, bordados, crochê tridimensional e fios de lurex deram textura física ao universo desenhado por Hayao Miyazaki. A fantasia não foi apenas impressa: foi construída à mão, camada por camada, usando o repertório técnico da casa espanhola.

5. Gucci x Doraemon: o GG encontra o gato-robô
Para celebrar o Ano-Novo de 2021, Alessandro Michele colocou Doraemon dentro do universo Gucci. O personagem criado no Japão em 1970 apareceu sobre a tela GG Supreme, em moletons, bolsas, carteiras, relógios e tênis. Em uma edição ligada ao Ano do Boi, ganhou até pequenos chifres.
A coleção funcionou porque aproximou dois tipos de memória afetiva: o monograma histórico da casa italiana e um personagem que atravessa gerações na Ásia. Nos tênis Rhyton e Ace, Doraemon surge em movimento, quase como se tivesse escapado do mangá para interromper a solenidade do luxo.

6. Tiffany & Co. x Pokémon: Pikachu em ouro e diamantes
Em 2023, Tiffany & Co., Daniel Arsham e The Pokémon Company transformaram seis personagens em joias de edição especial. Pikachu, Charmander, Squirtle, Jigglypuff, Cubone e Mew receberam o tratamento de “relíquias do futuro” que marca o trabalho de Arsham.
As versões em prata oxidada ganharam diamantes; Pikachu também apareceu em ouro amarelo de 18 quilates. A embalagem foi parte essencial do desejo: os pingentes de ouro eram entregues dentro de uma Poké Bola Tiffany Blue. A coleção partiu da exposição A Ripple in Time, apresentada em Tóquio, e foi lançada com distribuição que incluía a flagship de Omotesando.

7. Dolce & Gabbana x Jujutsu Kaisen: anime em chave italiana
A Dolce & Gabbana levou a estética de Jujutsu Kaisen para uma coleção especial lançada no Japão em 2022. Camisetas, moletons, jaquetas de náilon, tênis e acessórios combinaram a identidade gráfica do anime com logotipos, estampas e materiais ligados ao repertório da casa italiana.
Os personagens foram redesenhados pelo diretor da animação, Sunghoo Park, usando as próprias peças. A campanha fez uma ponte direta com Shibuya e Harajuku, bairros que aparecem tanto no imaginário da série quanto na cultura de rua contemporânea. Em vez de tratar o anime como estampa infantil, a coleção o assumiu como uma linguagem global de moda.

8. Bvlgari x Tadao Ando: as quatro estações no pulso
O arquiteto Tadao Ando levou sua relação com luz, natureza e passagem do tempo para um dos ícones da Bvlgari. Em 2024, quatro versões limitadas do Serpenti Tubogas interpretaram as estações japonesas: aventurina verde para o verão, olho-de-tigre para o outono, madrepérola branca para o inverno e madrepérola rosa para a primavera.
O desenho da serpente permaneceu reconhecível, mas os mostradores mudaram sua atmosfera. A colaboração provou que a influência japonesa pode aparecer sem símbolos óbvios: bastam cor, matéria, silêncio e a percepção de que beleza e impermanência caminham juntas.

9. Chopard e Hokusai: o Monte Fuji em laca urushi
No L.U.C XP Urushi Ukiyo-e, a Chopard reuniu alta-relojoaria suíça, laca japonesa e uma das imagens mais poderosas de Hokusai. O mostrador reproduz uma paisagem com o Monte Fuji, criada à mão no Japão por um mestre lacador com a técnica maki-e, que aplica pó de ouro sobre camadas de urushi.
A caixa de ouro amarelo ético mede 40 milímetros e abriga um movimento ultrafino com microrrotor de ouro. Limitado a oito exemplares, o relógio mostra o que acontece quando uma referência cultural não é tratada como decoração: a própria técnica tradicional passa a ser parte estrutural da peça.

10. Richard Mille RM 47: o samurai protege o tourbillon
O RM 47 Tourbillon levou quase quatro anos para ser desenvolvido e foi lançado em 2022 como homenagem à cultura japonesa. Dentro da caixa, uma armadura de samurai em ouro amarelo envolve o movimento. Seus onze componentes exigem 16 horas de gravação e outras nove de pintura manual.
Os detalhes fazem referência ao clã Asano e aos 47 rōnin; o brasão aparece junto ao tourbillon, enquanto uma folha de bordo japonês decora a coroa. Limitado a 75 peças, o relógio mistura engenharia contemporânea, microescultura e o imaginário do bushido em uma composição que parece tanto máquina quanto guardião.

Muito além da estampa
O fascínio do luxo pelo Japão não é recente, mas mudou de qualidade. As melhores colaborações atuais já não se contentam em repetir quimonos, dragões ou flores de cerejeira sem contexto. Elas procuram artistas, estúdios, arquitetos, mestres artesãos e personagens capazes de carregar uma visão própria.
Também é revelador que as referências circulem em todas as direções. Uma maison francesa encontra um mangá; uma joalheria americana transforma Pokémon em diamantes; uma casa suíça leva Hokusai para um mostrador; um arquiteto japonês redesenha a atmosfera de um ícone romano. O Japão não aparece como cenário passivo, mas como agente criativo.
Imersa em Tóquio, a Diverso encontra essa influência por toda parte: nas vitrines, nos cafés, na arquitetura, nos tecidos e na obsessão local pelo detalhe. Talvez seja essa a verdadeira afinidade entre o Japão e o luxo. Ambos sabem que um objeto se torna memorável quando técnica, narrativa e emoção cabem no mesmo gesto.
Apuração e créditos
Conteúdo produzido com base em materiais oficiais de Lacoste, Louis Vuitton, Dior, Loewe, Gucci, Tiffany & Co., Dolce & Gabbana, Bvlgari, Chopard e Richard Mille.
Fotos: © Cecy Young/Dior; Lacoste/divulgação e FASHIONSNAP; Louis Vuitton/divulgação; Loewe/Studio Ghibli/divulgação; Gucci/divulgação; Tiffany & Co./divulgação; Dolce & Gabbana/divulgação; Bvlgari/divulgação; Chopard/divulgação; Richard Mille/divulgação.
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