
Cerimônia do chá em Uji: a Diverso aprende o tempo do matcha
Na histórica Nakamura Tokichi Honten, a redação viveu uma imersão privada de quase três horas entre moagem em pedra, gestos precisos e sabores que ajudam a entender por que Uji é a capital japonesa do chá.
Há experiências que visitamos. Outras mudam o ritmo com que passamos a olhar uma cultura. Em Uji, cidade vizinha a Kyoto e referência incontornável quando o assunto é chá japonês, a redação da Diverso viveu hoje uma dessas raras manhãs: uma imersão privada na histórica Nakamura Tokichi Honten">Nakamura Tokichi Honten, na companhia de Ana Elisa e Isadora Saldanha, do Elisa Café.
Foram quase três horas dedicadas a algo que, à primeira vista, parece simples — preparar e beber uma tigela de chá. Mas o que se revelou foi uma combinação sofisticada de agricultura, técnica, hospitalidade, memória e silêncio. Aprendemos com um mestre do chá, moemos o tencha em uma antiga mó de pedra e provamos diferentes expressões de uma tradição que, em Uji, atravessa séculos.
UJI, ONDE O CHÁ VIROU CULTURA
O caminho até o matcha começa muito antes do pó verde chegar à tigela. Uji consolidou-se como uma das regiões de chá mais prestigiadas do Japão graças à combinação de solo, clima e umidade. A névoa que sobe do rio ajuda a proteger as folhas do sol intenso, e o conhecimento acumulado por gerações transformou o cultivo em uma linguagem própria.
Foi nesta região que se aperfeiçoaram métodos decisivos para a história do chá japonês. A partir do período Muromachi, no século XIV, os jardins de Uji ganharam prestígio entre a elite de Kyoto; mais tarde, o sombreamento das plantações ajudaria a criar o perfil de doçura, umami e cor que hoje associamos aos melhores gyokuro e matcha.

UMA CASA FUNDADA EM 1854
A Nakamura Tokichi nasceu em Uji em 1854. Sua loja principal ocupa um edifício que preserva a atmosfera de um comerciante de chá do período Meiji e integra a Paisagem Cultural Importante de Uji. A fachada de madeira, o pátio interno e o antigo pinheiro negro Horai Funamatsu — com cerca de 250 anos — fazem a visita parecer uma passagem delicada entre tempos diferentes.
Nada ali funciona como cenário vazio. A arquitetura continua ligada ao gesto cotidiano de selecionar, preparar e servir o chá. É essa continuidade que torna o lugar tão especial: a história não fica isolada em uma vitrine; ela se manifesta na madeira, nos utensílios, na etiqueta e na forma como cada etapa é apresentada.

ANTES DO MATCHA, EXISTE O TENCHA
Uma das descobertas mais marcantes da manhã foi compreender melhor o que existe antes do matcha. As folhas destinadas à bebida são cultivadas sob sombra nas semanas que antecedem a colheita. Depois de colhidas, são vaporizadas e secas sem passar pelo enrolamento usado em outros tipos de chá. Retiram-se talos e nervuras, preservando a parte mais delicada da folha: o tencha.
Só então começa a moagem. Sentados sobre o tatame, colocamos pequenas porções de tencha na mó de pedra e giramos lentamente a manivela, no sentido anti-horário. O movimento precisa ser constante, aproximadamente uma volta por segundo. A pressa aquece a pedra, altera aromas e compromete a textura. Aos poucos, um pó finíssimo e intensamente verde aparece na borda da mó.
Participar desse processo muda a percepção do matcha. A pequena quantidade produzida depois de vários minutos de trabalho revela por que precisão, paciência e matéria-prima são inseparáveis. Não é apenas moer uma folha: é preservar o máximo possível de sua cor, doçura, perfume e umami.

QUASE TRÊS HORAS SEM PRESSA
A experiência privada percorreu sabores e texturas diferentes. Começamos com o kumidashi, o chá de boas-vindas, e seguimos para preparações que mostram como a mesma cultura pode se expressar em registros distintos. O chasoba trouxe o chá para o prato; a famosa namacha jelly da casa mostrou sua face mais contemporânea e delicada.
Ao lado de Ana Elisa e Isadora Saldanha, do Elisa Café, a conversa naturalmente aproximou dois universos que compartilham muito mais do que imaginávamos. Café e chá exigem origem, água, temperatura, moagem, técnica e, sobretudo, atenção. Em ambos, o verdadeiro luxo está menos no excesso e mais na capacidade de perceber nuances.


ZUISHO-AN, UMA SALA DE MAIS DE TRÊS SÉCULOS
O ponto mais solene do encontro aconteceu na Zuisho-an. A pequena sala de chá remonta ao período Genroku, entre 1688 e 1704, e foi transferida para o pátio da loja principal há cerca de 150 anos. Antes de entrar, o caminho pelo jardim e o tsukubai — a bacia de pedra usada na purificação — ajudam a preparar corpo e espírito para a cerimônia.

Ali, cada gesto tem propósito. A posição dos utensílios, a limpeza do chawan, o movimento do chasen e a pausa antes de servir formam uma coreografia sem espetáculo. Provamos o koicha, mais espesso e concentrado, e o usucha, mais leve e aerado. A diferença entre ambos não está apenas na textura: muda a intensidade, o tempo da degustação e a forma como o sabor permanece.
O mestre do chá nos conduziu sem transformar o ritual em uma lista de regras. Ao contrário: a técnica apareceu como uma forma de acolhimento. O protocolo existe para que anfitrião e convidado estejam plenamente presentes naquele encontro — ideia simples, mas poderosa em um mundo acostumado à velocidade.

O LUXO DE PRESTAR ATENÇÃO
Saímos da Nakamura Tokichi sabendo mais sobre matcha, mas também com outra medida de tempo. A moagem lenta, a cerâmica aquecida nas mãos, o som da água e o silêncio entre um gesto e outro mostraram que a cerimônia do chá não busca impressionar. Ela convida a perceber.
Para a Diverso, explorar o Japão tem sido justamente isso: ir além dos endereços e encontrar as histórias, técnicas e pessoas que dão sentido a cada experiência. Em Uji, ao lado de Ana Elisa e Isadora Saldanha, entendemos que uma tigela de chá pode carregar agricultura, arquitetura, espiritualidade e hospitalidade — e que talvez o luxo mais raro seja reservar tempo suficiente para enxergar tudo isso.

Serviço Nakamura Tokichi Honten — 10 Uji Ichiban, Uji, Kyoto, Japão. Horários, disponibilidade e condições da experiência podem mudar. Consulte os canais oficiais antes da visita.
Fotos: divulgação/Nakamura Tokichi Honten e Wabunka (J-CAT). As imagens institucionais ilustram os ambientes e as etapas da experiência; não são um registro fotográfico da participação da equipe da Diverso.
Perfis e endereços
Nakamura Tokichi — site oficial
Nakamura Tokichi Honten — informações da loja
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