
Tempos Modernos
Omercado da estética está efervescente. Cada vez mais, as pessoas buscam as alterações faciais que, incorporadas aos hábitos sociais, comuns, corriqueiros, tornaram-se banais: “vou ali preencher meus lábios, na hora do almoço vou renovar meu Botox, vou…
B E
A U
T Y
Omercado da estética está efervescente. Cada vez mais, as pessoas buscam as alterações faciais que, incorporadas aos hábitos sociais, comuns, corriqueiros, tornaram-se banais: “vou ali preencher meus lábios, na hora do almoço vou renovar meu Botox, vou fazer minha segunda sessão anual de Sculptra...” Estimuladas por uma mídia social forte e cada vez mais abrangente e acessível, as pessoas
investem nos procedimentos estéticos seduzidas pela promessa da poderosa beleza embutida nas mensagens subliminares das redes on-line. Até aqui, não há nada de errado nessa conduta. Nada, se tudo fosse comedido e ponderado. Afinal, sentir-se bem consigo mesmo faz parte da nova ordem social, e significa autocuidado, que, em última análise, é benéfico e altruísta. Entretanto, não são esses valores que motivam a busca inconsciente pelo tão excludente padrão de beleza.
EXAGERO

Com a revolução digital e a entrada de profissionais não médicos no mercado da estética, houve uma verdadeira explosão de postagens de “antes e depois” − exposições muitas vezes apelativas, valorizando o exagero e o uso de grande número de seringas para os desejados preenchimentos faciais. De fato, a imagem é sedutora, e em geral, um “bocão” vende mais que um lábio moderadamente preenchido. Uma mandíbula quadrada impacta mais do que os contornos suaves. E essa tendência extrapola os limites da face e abrange também o corpo, com os bumbuns arredondados exibindo polegadas a mais e, assim, fazendo muito mais sucesso do que silhuetas, digamos, discretas. Os motivos das preferências pelo exagero são complexos e associados ao que chamamos de teoria do senso c o m u m. S e g u n d o essa teoria, nossas preferências são construídas pela intensidade da exposição a que somos submetidos rotineiramente, principalmente através da tela dos aparelhos celulares. A imagem que nos chega a todo instante é realmente poderosa a ponto de moldar nossas escolhas e construir determinado padrão como melhor e mais belo. Tal construção é gradativa e inconsciente, e acontece, portanto, sem que possamos perceber ou controlar.
A INFLUÊNCIA DO “PADRÃO”
Essa influência é tão forte que pesquisas recentes apontam um dado alarmante: as pessoas investem mais em “beleza” do que em educação. E, a partir daí, somos levados a questionar: onde temos investido nossos esforços? Pelo que temos sido influenciados?
De fato, a imagem é poderosa, mas é rasa. A imagem que seduz as maiorias de forma tão óbvia, nas redes on-line, é facilmente manipulável. Alguns segundos no Facetune ou no Photoshop são suficientes para obedecer ao ideal construído: alcançar o imaginário e o desejo das pessoas.
A CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O BELO
Nesse cenário, atualmente, algumas ações contrárias à beleza-padrão já sinalizam uma possível mudança social. Movimentos como o “Runway
Revolution”, o “Real Beauty” e o “Natural Hair Moviment” já são realidade nos EUA e no Brasil e convidam o público a ampliar seus ideais de beleza considerando características como a naturalidade, o conforto, a democratização de formas. De fato, tornando-nos conscientes de toda essa “falsidade” da imagem, talvez possamos deixar de nos influenciar de forma tão sedutora, flexibilizar nossas preferências e derrubar o “padrão” − excludente e opressivo. E é exercendo essa conscientização sobre a superficialidade da imagem que poderemos quebrar o status quo atualmente existente, vislumbrando imagens menos apelativas a ocuparem lugar central no palco de nossas preferências. Ideal seria que, em um futuro próximo, possamos valorizar mais a educação do que a “beleza”. E enxergar essa beleza em pessoas de diferentes cores, texturas e traços, sem a necessidade do exagero para nos deixar seduzir. Ao considerarmos a naturalidade e a individualidade, estaremos finalmente no rumo certo da verdadeira beleza, que abriga em si valores tão profundos quanto o próprio ato de educar-se.


