
Sob o sol do Benim
Houve um tempo que o Benim não era o Benim. Era Daomé. Lugar de diferentes etnias.
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Houve um tempo que o Benim não era o Benim. Era Daomé. Lugar de diferentes etnias. Diferentes culturas. De um mar que era sagrado. Onde a música da vida seguia seu ritmo natural.

Então houve um dia que o sol não tocou a pele. Nos tambores, não se viu a luz. Do silêncio, se ouviram lágrimas.
Foi quando o mar se viu tomado por navios que, dentro de si, traziam apenas espaços. Não tão amplos. Não tão cheios de ar. Espaços a serem preenchidos por medo e dor. Pelo cheiro de seres mutilados em sua história, em suas famílias, em sua fé. Espaços a serem preenchidos pelo povo africano escravizado.

olhava o mar como quem perde o destino. Como quem perde a humanidade. E, ainda assim, aprendeu a resistir.
Hoje, a cada janeiro, a Porta do Não Retorno se reabre para o mar. Não mais como lamento. Não mais como um grito emudecido. Como uma celebração da força de um povo que não apenas sobreviveu, como transformou a vida e a cultura dos lugares que tocou. Como exaltação da fé do Vodum, principal religião do Benim, que resistiu ao tempo, à colonização e aos avanços das potências católicas, islâmicas e evangélicas e levou seus tambores para diversos povos e crenças da América, como o Vodum haitiano, a Santería cubana e o Candomblé brasileiro.
Do Benim e seus vizinhos mais próximos, estima-se, vieram cerca de quarenta por cento do povo escravizado do Brasil. Um lugar, em específico, ficou marcado por essa história. A Porta do Não Retorno, em Ouidah, ponto de partida dos escravizados ao Novo Mundo. Um lugar onde, quem lá chegasse, era porque
Uma fé que invoca suas entidades para celebrar a vida, a natureza e a diversidade humana. Que acolhe como irmãos os diversos povos e etnias do Benim. Que celebra a história e a capacidade de reunir todas as cores sob o mesmo sol. Sob o mesmo mar. Sob um mesmo país.


