
How much is enough?
HOW MUCH IS ENOUGH? Um novo movimento vem despertando na economia teward-ownership, esse termo supercomplexo de se tra-
ESPECIAL
S0:25
Prof. Nien-hê Hsieh, Harvard Business School
teward-ownership, esse termo supercomplexo de se tra-
Katharina Pistor, autora de The Code of Capiduzir, algo como "empresa de propriedade responsável", tal, reforçou que propriedade é, antes de tudo, um sistetrata de um modelo organizacional que protege o seu ma de poder. E que, ao desenharmos as regras que defipropósito e vincula os resultados à manutenção desse nem quem controla uma empresa, estamos determinando propósito. Parece raro, mas é o caso de companhias de quem participa da economia — e quem fica de fora. Ao alta reputação e longevidade, como Novo Nordisk, Bosch, separar dinheiro de poder no longo prazo, o movimento
malle, ralaguna e nolex. O pulso vem de Berlim, onde um grupo de pessoas que colecionava decepções com a gestão de organizações começou a questionar a escassez de possibilidades de modelos de administração e a forma como os conceitos de poder e dinheiro são tratados como se fossem sinônimos. Não são: dinheiro é um instrumento econômico, e poder é uma capacidade relacional. Dinheiro pode gerar poder, mas poder não pode se reduzir a dinheiro. Uma coleção de exemplos fomentou a iniciativa: a venda de uma empresa que prejudicou drasticamente a qualidade do serviço desenvolvido, atingindo colaboradores e clientes; a abertura de capital de um hospital, cuja identidade de atendimento humano e diagnóstico assertivo desidratou na nova gestão, focada em atender a pressão por lucros para acionistas; um empreendedor frustrado ao vender sua marca de produtos naturais para uma multinacional e ver os ingredientes serem substitu dos por outros com salubridade questionável. Foi então que, BINGO! Eles concluíram: o erro não está nas pessoas, sejam acionistas, fundadores, colaboradores ou herdeiros, mas na falta de estrutura que garanta proteção ao propósito e ao legado daquela empresa. Afinal, uma empresa não é uma commodity. E, portanto, é possível e viável uma estrutura que tenha objetivo de lucro, proteção da missão e baixa especulação, o que seria vital para o momento em que nos encontramos, quando presenciamos o colapso de ecossistemas, o agravamento da desigualdade social e a desconfiança das instituições.
"RETORNO AO FUTURO"
Assim, criou-se a Purpose Economy, uma organização alemã que busca criar espaço para as steward-onwerships. Em outubro deste ano, participei da Conferência SO:25, em Berlim, onde, nos palcos e corredores, uma pergunta ecoava como um mantra coletivo: "How much is enough?" Entre acadêmicos, empreendedores e investidores, ficou evidente que steward-ownership não é uma ruptura futurista. E, como disse o professor Nien-Hê Hsieh (foto), da Harvard Business School, "um retorno ao futuro", um resgate da intenção original das corporações: existir por um propósito claro e servir à sociedade antes de servir ao acúmulo. Ouvir isso de quem estuda profundamente o tema no Harvard Ownership Project revela que há algo mais profundo: não se trata apenas de governança, mas de identidade.
mais "quem pode pagar?"
", mas sim "quem é capaz de cuidar?" Essa inversão parece simples, mas tem consequências revolucionárias: permite que empresas permaneçam fiéis ao que são, ainda que passem por sucessões, crises ou ciclos de mercado. Fato é que esse modelo não nasce como uma invenção heroica do século XXI, mas como convergência de tradições muito antigas. Alemanha, Dinamarca e Holanda têm organizações centenárias constituídas nesses padrões. No Japão, empresas seculares sobrevivem ao confiar a liderança ao mais apto. Em comunidades indígenas, posse nunca significou propriedade absoluta, mas responsabilidade por algo que também pertence ao futuro. Steward-ownership traduz essa sabedoria ancestral em estruturas contemporâneas. O Brasil já desponta na formação de uma comunidade local com o pioneirismo do Grupo Gaia. Com essa arquitetura organizacional, a empresa deixa de ser compreendida como mercadoria e vive seu propósito e legado, como um organismo vivo que precisa de cuidado e gestão, não de especulação.
RECONSTRUIR A CONFIANÇA
Não se trata de um nicho: "é vanguarda econômica",, descreveu o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier. É a tentativa real de reconstruir a confiança onde ela foi perdida - entre empresas e sociedade, entre propósito e prática. Mas, acima de tudo, é uma mudança de mindset, afinal, as histórias que contamos literalmente criam o mundo. E talvez este seja o novo enredo de que precisamos para atravessar os desafios dos nossos tempos: empresas que protegem o que dizem ser, e pessoas que assumem a coragem de perguntar, com honestidade profunda, quanto é suficiente. No fim das contas, é menos sobre empresas, e mais sobre pessoas. Sobre como agir, sobre qual legado desejamos deixar e sobre a reflexão entre prosperar e possuir. Talvez seja justamente ao fazer essa pergunta cheia de gatilhos de ansiedade e reais possibilidades de liberdade - How much is enough? — que possamos pensar uma economia que não se sustente na polaridade escassez × abundância, mas que tenha a suficiência como meta! Steward-ownership é uma inovação testada e provada, com longevidade e rentabilidade atestadas, que propõe reimaginar as bases da economia. E é bom lembrar: a economia não veio para se servir da sociedade e dos recursos naturais do planeta, ela veio para servir a sociedade e ao planeta Terra. *


