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A força de reverenciar a própria origem

A força de reverenciar a própria origem

De Bad Bunny a João Gomes, a escalada da autoestima latino-americana virou força econômica, cultural e simbólica — e merece nossa atenção.

Há algo de profundamente transformador quando um povo começa a se olhar com orgulho. E o fenômeno da escalada da autoestima latino-americana em curso merece nossa atenção. Bad Bunny, Fernanda Torres, Wagner Moura, João Gomes, Bruna Marquezine, Shakira, Pedro Pascal, Peso Pluma e vários outros artistas latino-americanos têm passeado pelos tapetes vermelhos do mainstream global com algo em comum: autoconfiança. É a altivez de quem conhece, reconhece e enaltece a origem de onde vem.

Bad Bunny, cantor porto-riquenho que sustenta o título recente de mais ouvido do mundo, foi a principal atração do Super Bowl. Com uma performance quase integralmente em espanhol, inspirada em sua ilha caribenha, fez o show de maior audiência de toda a história do esporte, num estádio californiano. Suas únicas palavras em inglês, "God bless America", seguidas pela citação de cada país do continente americano e um desfile de suas bandeiras, tinham ares proféticos — acompanhadas de frases estrategicamente posicionadas: "Juntos, somos América" e "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor".

No Brasil, a expressividade das raízes se manifesta no fenômeno João Gomes. Sertanejo pernambucano, com chapéu de couro e sanfona, ele emplaca o piseiro e se consagra entre os artistas mais ouvidos do país — acumula aproximadamente 3,576 bilhões de streams no Spotify. Bad Bunny, por sua vez, foi o mais ouvido do mundo no Spotify em 2025, à frente de Taylor Swift, The Weeknd, Drake e Billie Eilish, e fez história no Grammy 2026 ao se tornar o primeiro artista a vencer "Álbum do Ano" com um disco totalmente em espanhol, DTMF — Debí Tirar Más Fotos. Sua residência artística em Porto Rico, de trinta shows, com o sugestivo título "No Me Quiero Ir De Aquí", rendeu impacto econômico estimado entre US$ 200 milhões e US$ 733 milhões, segundo a Gaither International.

Os números seguem: com mais de 500 milhões de usuários de aparelhos móveis, os latino-americanos estão entre os consumidores mais ávidos de mídia social do mundo. A Netflix projeta investir cerca de US$ 18 bilhões em conteúdo global em 2026, mantendo a América Latina como região estratégica — só no México, destinou US$ 1 bilhão a produções locais; no Brasil, inaugurou novo escritório em São Paulo com investimento de aproximadamente R$ 141 milhões. A IFPI apontou a América Latina como um dos mercados de música gravada que mais cresceram em 2024. E a economista Mariana Mazzucato, da University College London, trouxe ao Brasil dados de pesquisas com a UNESCO: cada R$ 1 investido em cultura e artes pode gerar até R$ 7,59 em impacto econômico — ante um multiplicador estimado de R$ 3,76 do setor automobilístico. No caso do Carnaval, pesquisas da FGV apontam movimentação de cerca de R$ 4 bilhões.

Essa ascensão não é de hoje, mas se tornou mais ampla, consistente e diversificada. A tradição literária de Guimarães Rosa, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa abriu caminho no século XX; no cinema, Guillermo del Toro, Alejandro Iñárritu, Walter Salles, Petra Costa, Kleber Mendonça Filho e Alfonso Cuarón consolidaram presença em Hollywood; nas artes visuais, Adriana Varejão, Oscar Murillo e Tania Candiani circulam por museus de Nova York, Londres e Madri. A The Economist sustentou recentemente que a cultura latino-americana deixou de ser periférica para se tornar eixo central da indústria global do entretenimento.

O que todos esses dados e histórias demonstram é que valorizar a própria história é, incontestavelmente, uma força transformadora. Não se trata de comunicar dentro das bolhas para os iguais, mas de, a partir de uma base sólida de identidade, dialogar com o mundo. Não há fronteira que apague o brilho que vem de dentro.

Capa da edição 59 Publicada na edição 59Folheie a edição completa, do jeito que ela circula.
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