
Ela tem um ponto: um ponto sozinho não é nada
Ela via bolinhas. Ninguém mais as via. Yayoi Kusama viveu 97 anos, 87 deles com diagnósticos complexos de transtornos mentais e um pincel na mão traduzindo em redes de pontinhos seu mundo particular.
Ela via bolinhas. Ninguém mais as via. Yayoi Kusama viveu 97 anos, 87 deles com diagnósticos complexos de transtornos mentais e um pincel na mão traduzindo em redes de pontinhos seu mundo particular. Setembro dá luz, consciência, e cor amarela a causa, e convido o leitor a honrar a conhecer mais a luta e a obra dessa artista, que se tratava e se expressava, trazendo vitalidade e a longevidade para sua história.
A biografia de Kusama é uma jornada de autenticidade e valentia. Nasceu no Japão em 1929, numa família tradicional, com planos e expectativas convencionais já estabelecidos para ela. Aos dez anos começou a traduzir em imagens os sintomas visuais com os quais convivia. Mais tarde, estudou pintura japonesa (nihonga), questionou a rigidez hierárquica estabelecida e chegou a destruir boa parte da própria produção inicial. Saber o que não quer, talvez seja tão importante quanto saber o que quer.
Ao se deparar com a obra de Georgia O’Keeffe, pintora modernista norte-americana, escreveu-lhe uma carta de admiração pedindo conselhos. Georgia respondeu com generosidade e carinho, nutrindo Yayoi de confiança e coragem. A correspondência transatlântica floresceu, e, em 1957, Yayoi desembarcou nos Estados Unidos, com centenas de trabalhos em papel na mala. Em sua autobiografia (Infinity Net), Kusama revelou que a gentileza e a consideração de O’Keeffe por uma “humilde garota japonesa” que ela sequer conhecia foram o combustível definitivo para que ela superasse seus medos e conquistasse o mundo.

A vida em Nova York, contudo, não foi fácil. Enfrentou fome e frio, mas jamais perdeu a disciplina, seguiu produzindo. Pintou as Infinity Nets: telas imensas cobertas, ponta a ponta, por milhares de pequenas pinceladas repetidas, sem centro, sem começo, sem fim, com plena conexão entre elas. A crítica começou a reconhecer o valor do seu trabalho. Aos 30 anos, a artista japonesa antecipava o minimalismo e criou ainda: Acumulações, móveis achados na rua cobertos de protuberâncias fálicas de tecido, os happenings antiguerra com corpos nus pintados de bolinhas.
Numa atitude insolente, foi à Bienal de Veneza de 1966, sem convite, e expôs Narcissus Garden: 1.500 esferas espelhadas no gramado ao lado do pavilhão italiano. Vendeu a dois dólares cada globo espelhado, sob uma placa que anunciava “narcisismo à venda” e distribuiu também cópias de um texto do crítico britânico Herbert Read atestando a qualidade e valor do seu trabalho. Genial, corajosa, com ímpeto de realização. É verdade que foi expulsa, mas o futuro é gentil: em 1993, 27 anos depois, ela volta à Bienal de Veneza, como convidada, sendo a primeira artista japonesa a ocupar o pavilhão sozinha com a obra Mirror Room (Pumpkin); em 2009, a instalação Narcissus Garden ganha nova forma num espelho d’água no museu de arte contemporânea a céu aberto, Inhotim, onde flutuam 750 esferas prateadas.
Em 1973, voltou ao Japão. Em 1977, internou-se voluntariamente numa instituição psiquiátrica, e montou seu ateliê do outro lado da rua. Atravessava todos os dias para trabalhar. Cuidava-se para criar, criava para se cuidar. Não há que romantizar processos de cura pela arte, afinal ela viveu meio século dentro de um hospital, com crises, medicação e acompanhamento médico. Contudo, há que validar o senso de coerência salutogênico que sustenta a autenticidade da escolha pelo autocuidado para legitimar o vigor da expressão. Vale lembrar que Kusama também teve presença forte na poesia e na literatura.

O legado de Nise da Silveira
É importante lembrar de uma médica psiquiatra alagoana que travava, no Rio de Janeiro, uma batalha pela mesma tese do tratamento com apoio da arte, com a mesma arma: o pincel. Dra Nise da Silveira recusou-se terminantemente a aplicar tratamentos convencionais da psiquiatria da época em seus pacientes, por considerar agressivos e ineficazes. Na terapia ocupacional, desenvolveu um ateliê de pintura e modelagem para seus pacientes, trazendo contribuições relevantes para a saúde mental.
O crítico Mário Pedrosa validou as pinturas produzidas pelos pacientes de Nise, introduzindo-as ao circuito da arte contemporânea. Nise criou o Museu de Imagens do Inconsciente (1952), a Casa das Palmeiras (1956), com tratamento em regime aberto, e introduziu a psicologia junguiana na América Latina.

Enquanto Kusama é paciente artista, Nise é a médica que trata com arte. Contemporâneas e visionárias, as duas apostaram que há saúde e vitalidade na expressão.
Kusama e o Brasil
A arte de Kusama é celebrada no mundo e o Brasil já realizou retrospectivas e exposições relevantes com o trabalho da artista. Em 2023, Inhotim inaugura também uma galeria permanente dedicada à artista, são 1400 m², com as instalações I’m Here, but Nothing (2000) e Aftermath of Obliteration of Eternity (2009).
Para Kusama, um único pontinho não serve de nada. O ponto só faz sentido no encontro, a expressão só se concretiza no outro. “Se existe uma chance que, daqui a cem anos, uma única pessoa olhe para o meu trabalho e se emocione, então preciso continuar criando arte para essa pessoa.” Yayoi Kusama (1929 -2026).
Imagens: capa da edição 61; obras e Galeria Yayoi Kusama no Inhotim. Fotos de Pedro Motta, Daniel Mansur e cortesia de Bellagio.
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