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Fotografia da matéria: Do Divã à Cadeira de Procedimentos

Do Divã à Cadeira de Procedimentos

Trabalho com a aparência física há quase 20 anos e todos os dias me emociono com o que bate à minha porta.

B E

A U

T Y

Trabalho com a aparência física há quase 20 anos e todos os dias me emociono com o que bate à minha porta. Muito além de vaidades e caprichos, lido com baixa autoestima, falta de amor próprio, angústia, drama, rejeição e depressão. Mas também com superação, realização, sonho e felicidade. A primeira vez que percebi a importância da aparência física, em especial a face, de um modo geral, foi quando ainda era residente de cirurgia geral, em 2001, e fiquei responsável por um paciente chamado Eduardo, da ala B da enfermaria do 3º andar do IPSEMG. Um dia Eduardo estava jogando futebol quando percebeu um nódulo do tamanho de um feijão

em sua axila esquerda. No outro dia, o “grão de feijão” estava do tamanho de um limão e, duas semanas depois, do tamanho de uma bola de boliche. Ele foi diagnosticado com um sarcoma agressivo, de rápida evolução e fatal. Era eu quem fazia os desbridamentos e trocas diárias e muito dolorosas de curativo da lesão, que naqueles dias já chegava ao tamanho de uma bola de basquete. Durante esses vários momentos, por dias que se estenderam a meses, fui confidente amável e atenciosa. Afinal, aquele moço lindo de 18 anos tinha os dias contados. Ele dizia que quando saísse do hospital (eu sofria ao ouvir aquilo, pois sabia que ele não sairia) faria um tratamento da acne que ele apresentava na face, pois precisava conquistar

uma menina por quem era apaixonado... Ele ali, bem próximo da morte, falando das suas “espinhas” e de como ele queria um dia se sentir mais belo. Alguns anos depois, já como plantonista de cirurgia plástica do Hospital João XXIII, vivi momentos emocionantes ao cuidar dos queimados, cuja esperança pela cura da pele danificada os fortalecia para suportarem a dor dos curativos e toda a imprevisibilidade do tratamento. Foram várias as histórias confidenciadas nos leitos da enfermaria, muitas delas explicando o porquê das tentativas de autoextermínio ou o momento fatídico segundos antes do acidente que mudaria para sempre o destino daquelas pessoas. Mais tarde, já em minha clínica particular, lembro-me da garotinha de família muito simples, que me enviou uma carta pelo correio, contando seu sonho de operar as orelhas em abano. Ela relatou toda a sua vergonha na sala de aula, todo o seu medo do mundo, e o que mais doía: a impossibilidade financeira de se libertar dessa dor. “Dra Patrícia, meus cabelos não escondem mais as orelhas... eu não me olho no espelho e só tenho vontade de chorar.” Ela tinha 14 anos e, no fim da carta, disse que arrumaria o dinheiro para pagar o ônibus do interior a Belo Horizonte, fazendo faxinas e vendendo bolo na praça. Ora... ela me encontrou pelo Google, ela teve a inteligência e a coragem de fazer com que um pedaço de papel chegasse até mim.... Ela sonhou e de alguma forma batalhou pelo seu sonho. Eu a operei. Como agradecimento, ela me mandou uma carta que guardo a sete chaves. E uma caneca de chá, com minha foto impressa (rs... fofo!). Em momentos de dificuldades laborais eu leio essa carta. E me lembro de como minha profissão pode transformar a vida das pessoas. É uma espécie de lembrete para mim: continue... continue. Felipe também veio de longe... cartas e e-mails diversos... uma história de rejeição, mas também de superação! Ele apresentava uma deformidade craniofacial de difícil solução. As cirurgias a que foi submetido melhoraram a função e resolveram a questão da mordida, dos dentes e dos problemas respiratórios. Mas a “estranheza” permanecia... A deformidade estética, evidente em seu rosto, roubava sua autoestima, em um momento em que ele não tinha maturidade para conviver com ela. Uma tentativa de autoextermínio; a falta de compreensão da família; a rejeição dos pais; a infelicidade; os limites financeiros. Fizemos algumas sessões de tratamentos diversos. Ele sempre chegava com uma rosa para mim. A última sessão aconteceu e o tempo se passou. Às vezes ele me curtia no Instagram. E um dia desses, cliquei no perfil dele: um homem lindo. Musculoso, com tatuagens, a face fotografada sempre de determinado ângulo, mas muito bela.... estava com um namorado e, para minha surpresa, havia se tornado médico! Fiquei emocionada ao vê-lo em uma situação tão diferente. E concluí mais uma vez admirada: como o aprimoramento da estética facial pode mudar as perspectivas e o destino das pessoa. Recentemente atendi alguém que dizia querer estar muito bem para seu aniversário de 50 anos. Ela dava ênfase a esse aniversário toda vez que ia aos retornos.

E um dia perguntei o porquê dessa importância da data. Entre lágrimas e muita emoção, ela então me revelou que precisava cuidar de sua aparência e tinha que estar linda no dia, porque já havia sofrido demais – perdera sua filha de 18 anos de maneira banal e isso roubara sua paz por alguns bons anos – e, agora que havia superado, queria comemorar a vida. Agora era o momento de comemorar a superação e tinha que estar bonita! Caso semelhante é o da mãe que também perdera seus dois filhos, um dentista e uma médica, ambos terminando a faculdade, em um acidente de carro. Ela vinha me ver buscando aliviar aquela dor, de algum jeito. Mas parecia que ela não estava ali.... a dor era tão grande que ela buscava os tratamentos estéticos como uma tentativa desesperada de aliviar a perda. Um dia ela chegou feliz, dizendo que ia ser avó (ela tem um terceiro filho). Disse que se sentia radiante e que via Belo Horizonte colorida, não mais cinza. Nesse dia não fizemos procedimentos estéticos. Ela tinha ido à clínica só para me contar sobre sua felicidade e me entregar uma caixa de biscoitos caseiros. Eu lhe disse que naquele dia ela não precisava mesmo dos procedimentos, pois estava com um brilho e uma alegria estampada na face que dispensavam quaisquer tratamentos. Ela concordou, me deu um abraço, e chorou. Há alguns meses uma senhora de 50 anos veio me visitar. Muito simples, disse que queria melhorar o rosto. Depois de alguns minutos de conversa, já na cadeira de procedimentos, ela me olhou no fundo dos olhos e, em lágrimas, perguntou: “eu demorei muito?” Ao tentar compreender a pergunta, ouvi que, aos poucos, ela abandonou a profissão e a si mesma para cuidar dos filhos e da casa. Esqueceu-se de sua aparência e de sua sexualidade. E agora o marido dizia que ela era feia, e que não era mulher para ele. Em meio a traições e assédio moral constantes, ela resolvera me procurar para se sentir mais bela. Eu disse que não, que ela não havia demorado. Que tudo acontecia no tempo certo e que havia muito mérito e beleza nessa renúncia. Há algumas semanas fui procurada por uma senhora de 54 anos, buscando lifting facial. Durante a avaliação identifiquei que, mais que a flacidez, havia um grande prejuízo estético nos dentes e nas arcadas dentárias. À medida que fui esclarecendo e explicando a ela o que estava prejudicando sua aparência, ela finalmente revelou, também entre lágrimas, que passara a vida sem sorrir para esconder os dentes. E agradeceu profundamente por alguém ter finalmente compreendido essa dor. Eu disse: podemos operar sim, mas, antes, o dentista! Liguei para um amigo, na frente dela, passei todo o caso e estamos juntos trabalhando nesse coração. Ao longo desses anos, concluí que as gotinhas de Botox e preenchedores são como remédios para a alma. Claro, quando injetados com um interesse verdadeiro pela questão do paciente e, principalmente, com amor, pois só assim podemos enxergar além do físico. Sorte a minha ter o privilégio de trabalhar com o que amo, na certeza da minha grande motivação: trazer mais amor próprio e felicidade às pessoas.

Capa da edição 35 Publicada na edição 35Folheie a edição completa, do jeito que ela circula.
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