Banho Turco
Debruçado sobre o Egeu, o Kaplankaya traz de volta à Riviera Turca os bons navegantes à procura de um destino de verão a salvo da gentrificação
Asingrar um Mediterrâneo minado de turistas mais low cost que low profile, viajantes em busca de verões no anonimato viraram o timão em busca de novos mares, outros ares. Tomaram a direção menos óbvia para ancorar em um porto seguro onde valores são medidos por experiências e não por investimentos. Desembarcaram em uma das últimas penínsulas intocadas da Riviera Turca, nas terras batizadas de Kaplankaya, a menos de 40 minutos ao norte de Bodrum e a uma hora a oeste da ilha grega de Patmos Egeu adentro. Em terra, está a poucos quilômetros de sítios históricos, como o Templo de Apolo e as ruínas de Éfesus. Pela localização e pelo que sentimos ao chegar, é seguro dizer que mora na mitologia o paraíso criado pelo empresário turco Burak Öymen. Frequentador da região desde a infância, há dez anos ele transformou um bocado de rochedos debruçados sobre o mar em um complexo de 156 vilas (metade delas já prontas e vendidas), com uma casa assinada por Norman Foster – o arquiteto inglês também assina a futura marina, a ser inaugurada em 2020 –, jardins de buganvílias, ciprestes e um hotel sob a égide do Six Senses. Pense em todas as terapias holísticas que fizeram a fama da rede hoteleira mundo afora e acrescente o melhor hammam da região, capaz de esfoliar a alma e renovar o espírito. No horizonte, ainda surgem sete praias exclusivas, três restaurantes com cozinhas que vão da italiana ao melhor da gastronomia local – não se preocupe, há raw e vegan nos cardápios – e um beach club esculpido pela turma da K-Studio que, não tãão longe dali, projetou um dos bares mais concorridos de Mykonos: o Scorpios. E morre aqui a afinidade com a bombshell do verão helênico (você ainda vai a Mykonos?), pois tudo e todos em Kaplankaya querem sossego e brincar de ser invisível, enquanto meio mundo se afoga por uma chaise com champagne com vista para o último barco do Roman Abramovich. In loco, talvez pelo jeito de ser e de estar de Burak e de sua mulher, a ex-modelo checa Tereza Maxova – capa da lendária Conde Nast Traveller de 1997, na qual divide, na piscina, as atenções com um elefante –, a cena é low key na máxima potência. Nada e nem ninguém aparece mais que a natureza e além do natural. Vai daí que se tornou o destino de férias de quem já deu por visto aqueles verões de quando Capri ou Saint-Tropez ainda eram mais ou menos novidade. Amigas de Tereza, Eva Herzigová e Karolína Kurková são fiéis habitués. É possível que você esbarre com uma delas conduzindo os carrinhos elétricos de golfe da academia até a praia, mas o protocolo é universal: rápido contato visual, um aceno talvez e de resto não vi, não sei quem é. O que se sabe é que o Kaplankaya nasce em boa hora, quando o mundo volta a olhar com atenção para a Turquia depois de dois anos complicados de terrorismo e instabilidade política. Não que tenha mudado da água para o vinho, afinal, o clima por ali nunca foi muito bem diluído. Mas já não pesa sobre sua atmosfera velhas inseguranças que afastaram os marinheiros de primeira viagem. O clima é de paz e amor, pelo menos naquele pedaço impreciso e precioso por onde já passaram gregos, romanos, Gengis Khan e, caso ele tenha existido, Jesus. E a Arca de Noé, que encalhou ali pertinho, no Monte Ararat, após o dilúvio bíblico. Fato é que “mexe qualquer coisa dentro doida”, entre mergulhos naquele mesmo mar onde um dia nadaram Constantino e Alexandre, O Grande, e caminhadas à sombra das enormes oliveiras milenares plantadas e replantadas por Burak em sua terra prometida. Em tempos de resgates dos velhos hábitos de bem-estar e bem viver, quando tudo que procuramos é um lugar para se perguntar “afinal, aonde vamos parar?”, nada mais sensível e apropriado que voltar à cena onde antigas civilizações, a contar pelo que deixaram e pelo que restou, sabiam que beleza e paz de espírito valem mais que os bitcoins somados pelo seu amigo londrino.


