
A Família Kardashian e os Procedimentos Estéticos
Quem nunca se viu tentado a não mudar de canal, mesmo sabendo que o Keeping Up With the Kardashian não vai acrescentar nada à vida de ninguém?
B E
A U
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Quem nunca se viu tentado a não mudar de canal, mesmo sabendo que o Keeping Up With the Kardashian não vai acrescentar nada à vida de ninguém? A fama do clã teve início quando, em 2006, Kim, a mais popular das irmãs, teve sua sex tape vazada para o mundo. O filme caseiro com o rapper Ray J, seu então namorado, foi um “enorme sucesso” e, um ano após o incidente, tinha início o reality show. Ao longo dos anos, as irmãs passaram de subcelebridades para grandes nomes do entretenimento, sendo, hoje, estrelas de anúncios importantes e capas das maiores revistas do mundo.
Entre todas, Kim Kardashian e Kendall Jenner são as de maior notoriedade. Elas são superadeptas das grandes modificações na aparência, símbolos fiéis do culto aos procedimentos estéticos faciais, da maquiagem mais tecnológica e de tudo o que a luxúria ostenta. E fazem um sucesso meteórico em todo o mundo. Sempre foi possível, desde que as técnicas de cirurgia plástica eclodiram no meio científico, mudar as feições e os traços faciais. Mas não tão facilmente como agora. Sabemos que os preenchimentos, a toxina botulínica, os fios de tração e os diversos procedimentos minimamente invasivos podem mudar COMPLETAMENTE uma face.
De fato, vivemos um período histórico, em que as possibilidades infinitas são a regra. A informação chega a nós com uma rapidez nunca antes experimentada. O conhecimento científico atingiu lugares antes impensáveis, e as possibilidades são realmente infinitas. Acompanhando as tendências futuristas e tecnológicas, adequar as feições faciais ao momento psicossocial em que o indivíduo está inserido é hoje simplesmente possível. É possível também criar identidades diversas, trocar de nome, de país, de vida, e até de rosto. As irmãs Kardashian são os estereótipos perfeitos do que a indústria do show business americano elegeu como ideal de comportamento e de beleza. Por estarem muito em evidência na mídia, terem suas contas bancárias recheadas e todas as facilidades e presentes com que são agraciadas pela sociedade rotineiramente, elas mostram uma vida “fácil”. Moram em mansões cinematográficas, andam em carrões, passam horas em clínicas de estética e em salões de beleza, usam roupas e acessórios caros, de grifes de luxo, e se entregam frequentemente a dramas emocionais que rendem muito “ibope”. Elas malham, mas têm o corpo roliço, exibindo a cultura do “wellness” (ou bem-estar), proporcionado por uma vida de regalias e prazeres. São corriqueiras as imagens delas se deliciando com comidas diversas e guloseimas. Exibem, portanto, um corpo violão, com um grande exagero de glúteos e quadris, a cintura fina e os seios fartos. Um convite ao deleite sexual, simbolizando bem a luxúria e o erotismo americano à flor da pele. Representam a vida “perfeita”, dotada de regalias e facilidades, um mundo paralelo e uma trama dramática e sedutora. Simbolizam o prazer que buscamos inconscientemente, algo inerente à nossa condição humana. Algo que grita em nosso íntimo paralelo à luta pela nossa sobrevivência e afirmação enquanto indivíduos no mundo moderno, competitivo, frio e perigoso em que habitamos neste momento da história. Seus rostos exibem procedimentos estéticos exagerados, porém perfeitos, que, juntamente com técnicas altamente sofisticadas de maquiagem e cabelo, produzem o estereótipo do rostão: lábios grossos; zigomáticos marcados; contorno facial inferior em forma de “v”; ângulo de mandíbula marcado; olhos puxados; nariz fino; supercílios bem delineados e inclinados súpero-lateralmente. Simbolizam a face neotênica e o rosto de boneca moderna, mesclando beleza clássica com traços exóticos e eróticos. Ou seja: uma mistura quase perfeita do clássico com o exagero, com o novo, com o movimento e com a força. São a fórmula perfeita de venda de um ideal de beleza imponente e sedutor pelo seu apelo altamente sexual, financeiro e comportamental, que vai ao encontro do ideal de vida da sociedade moderna, que valoriza a beleza, a riqueza e a entrega aos dramas psicológicos da vida.
QUAL É O LIMITE?
De repente, somos tomados por uma reflexão... até que ponto? Até quando é saudável, sensato, coerente, mudar de rosto? Correntes filosóficas Junguianas são categóricas ao afirmar que as formas geométricas e as linhas presentes em nossa face dizem mais sobre nós mesmos do que podemos imaginar. Segundo sua obra O Homem e Seus Símbolos, Jung fala dos arquétipos, símbolos visuais que nos conduzem invariável e inconscientemente a emoções e sentimentos imutáveis pelas culturas e civilizações através do tempo. São formas e linhas que instigam determinadas emoções. Nós as exibimos em nossa face. Fornecemos impressões ao observador que fita nosso rosto, sem sequer nos expressarmos. Voltando às Kardashian, teria sua personalidade mudado também quando decidiram deliberadamente alterar drasticamente suas faces? Em caso negativo, como ficaria o diálogo entre o formato original da face presente em seu código genético − e condizente, segundo Jung, com sua personalidade − e o novo rosto, escolhido pelos modismos, pelo médico do momento, pelo sucesso? Salvo devidas proporções, vivo rotineiramente esse drama. Pacientes querendo se transformar. Expectativas muito irreais. Sofrimento exagerado com o envelhecimento. Desejo, necessidade de mudar de rosto... E sou frequentemente tomada por uma profunda reflexão: lutamos tanto pelo conhecimento, progredimos tanto enquanto sociedade, os meios de comunicação... como evoluíram! As possibilidades são realmente tão mais infinitas... Mas e a nossa felicidade? Essas infinitas possibilidades não estariam causando sofrimento e inadequação? É certo que sim. Um rosto perfeito, muito dinheiro e tempo envolvidos na tal transformação. E, de repente, uma inadequação. Nada conversa. A aparência gritando. A essência imutável. Um descompasso. E chego então a uma triste constatação: estamos pagando um preço alto por tantas possibilidades. É necessário equilíbrio. É preciso ter cuidado com o que se deseja. É preciso ter mais zelo com nossa própria natureza, com o nosso corpo, com o nosso rosto… Precisamos respeitar nossa estrutura psicológica por trás da forma. Somos um todo, não há como separar nosso rosto do nosso corpo, da nossa psiquê, da nossa legítima estrutura psicológica. Assim, talvez possamos encontrar o equilíbrio que tanto nos falta nos dias atuais para então usufruirmos, com moderação, das impensáveis possibilidades do mundo moderno.


